44.323 internações em 5 anos: SP tem uma epidemia silenciosa de acidentes com motociclistas, e o SUS está pagando a conta errada
Entre janeiro de 2020 e setembro de 2025, a cidade de São Paulo registrou 44.323 internações de motociclistas vítimas de acidentes de trânsito. Um estudo da Associação Paulista de Medicina revelou que o custo real de cada internação pode ser até 5,26 vezes maior do que o repasse feito pelo SUS, abrindo um rombo silencioso nos hospitais públicos que ninguém ainda parou para calcular por inteiro.
Nas madrugadas das UPAs da Zona Sul, nos corredores lotados do pronto socorro do ABC, nas salas de cirurgia do Hospital Geral de Pirajussara, uma mesma cena se repete com regularidade brutal: um motociclista é trazido de ambulância, com trauma múltiplo, às vezes sem capacete, frequentemente jovem, quase sempre homem e negro. O que vem a seguir são dias de internação, cirurgias de emergência, fisioterapia e uma conta hospitalar que o Sistema Único de Saúde nunca cobre inteiramente. Em cinco anos, essa cena se repetiu 44.323 vezes só na cidade de São Paulo. E o problema está longe de diminuir.
Os números que ninguém juntou no mesmo relatório
Os dados foram extraídos do Sistema de Informações Hospitalares do SUS, o SIH-SUS, cruzados com o Sistema Custo por Paciente, ferramenta desenvolvida em parceria entre a SPDM, Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, e a Planisa, empresa especializada em gestão de custos na saúde. A análise focou nos casos classificados com CID entre V20 e V29, que abrangem acidentes de motocicleta em diferentes cenários: colisão com animais, pedestres, automóveis e objetos fixos.
O resultado é revelador. As 44.323 internações registradas entre janeiro de 2020 e setembro de 2025 no município de São Paulo geraram um total de 229.096 diárias hospitalares, com custo total de R$ 72.874.548,83 de acordo com o faturamento previsto pelo SUS. Mas esse número, por si só, já esconde o problema: é o valor que o SUS tabela como repasse, não o que os hospitais efetivamente gastam.
Para cada acidente com motocicleta, o hospital gasta em média R$ 6.475,97. O SUS repassa R$ 1.231,10. A diferença é de 5,26 vezes. Quem absorve o restante é o próprio hospital público.
Fonte: SPDM / Associação Paulista de Medicina, janeiro de 2026Quem é o motociclista que chega ao pronto socorro de SP
O levantamento da SPDM analisou o perfil de 77 pacientes internados no Hospital Geral de Pirajussara ao longo de 2025 por envolvimento em acidentes com motocicletas. O retrato que emerge não é de uma exceção: é de uma regra social. 82% dos pacientes são do sexo masculino. 72% se autodeclaram negros ou pardos. A faixa etária predominante está entre 20 e 39 anos. São, em sua maioria, trabalhadores na melhor fase produtiva da vida, muitos deles usando a moto como principal instrumento de trabalho e renda.
Esse perfil é consistente com o que o VIVA Inquérito 2024, pesquisa do Ministério da Saúde realizada com 42 mil entrevistados em unidades de pronto atendimento de todo o Brasil, encontrou em nível nacional. Entre os acidentados que chegavam a serviços de pronto atendimento, 20,8% eram trabalhadores de aplicativos. Em São Paulo e Belo Horizonte, esse percentual sobe para 31%. Em outras palavras, quase um em cada três motociclistas que entram em uma UPA paulistana com trauma de trânsito está de mochila de entrega nas costas, ou estava até o momento do acidente.
O efeito cascata que paralisa cirurgias eletivas
O impacto dos acidentes de moto sobre o sistema de saúde vai muito além do custo direto de cada internação. O volume de casos de trauma grave que chegam às emergências de forma contínua e imprevisível cria um efeito em cadeia que compromete toda a capacidade cirúrgica dos hospitais de referência.
As internações de motociclistas forçam o adiamento de cirurgias eletivas complexas devido à lotação das unidades de saúde. No Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, o INTO, no Rio de Janeiro, de janeiro a junho de 2025 foram realizadas cirurgias de alta complexidade em cinco pacientes graves por semana transferidos após sinistros de trânsito. O diretor do serviço de ortopedia do instituto resumiu o problema com clareza: "Se aumenta a demanda de pacientes para cirurgia eletiva e aumenta a demanda de pacientes transferidos por acidentes de trânsito, a gente não consegue dar conta de tudo. Nosso problema não é orçamentário, é físico. Não vai ter gente suficiente para dar conta."
No cenário mais grave, as despesas hospitalares podem atingir até R$ 400 mil por paciente, refletindo a gravidade das lesões que frequentemente exigem múltiplas cirurgias, internações prolongadas em UTI, tratamento de lesões medulares, amputações e meses de reabilitação. São esses casos extremos que mais distorcem a conta entre o repasse do SUS e o custo real.
Uma epidemia que cresceu junto com a frota e com o delivery
Os dados de SP não existem no vácuo. Eles são o reflexo local de um problema nacional que se agravou progressivamente desde os anos 2000, quando a produção de motocicletas no Brasil passou de cerca de 1 milhão de unidades para aproximadamente 2,5 milhões ao ano. Entre 2010 e 2023, 1,4 milhão de motociclistas foram internados após acidentes nas ruas brasileiras, o que corresponde a 57,2% de todas as internações associadas a lesões de trânsito no país. As internações de motociclistas nesse período exigiram um gasto de mais de R$ 2 bilhões, ou 55,2% de tudo o que foi investido em gastos hospitalares com vítimas de trânsito.
O custo estimado com acidentes de trânsito para a sociedade como um todo é de cerca de R$ 50 bilhões por ano, sendo a maior parte relativa à perda de produção das vítimas, seguido pelos custos hospitalares. Em 2024, houve um aumento de 15% nas internações por acidentes com motos em comparação com 2023. E os acidentes com motocicletas passaram de menos de 10% do total de óbitos no trânsito no início dos anos 2000 para mais de 40% em 2024.
O que os dados não mostram mas a rua já sabe
Há um dado que o SIH-SUS não captura: quantos dos 44.323 internados em SP eram trabalhadores de plataformas digitais que precisaram parar de trabalhar e ficaram sem renda durante a recuperação. Não há seguro-desemprego para quem é autônomo. Não há auxílio-acidente automático. Não há garantia de que a vaga no aplicativo ainda estará disponível quando o motoboy sair do hospital meses depois.
O que os dados mostram, com clareza crescente, é que a epidemia silenciosa de acidentes com motociclistas em São Paulo tem perfil social definido, custo público calculável e soluções que passam por três frentes simultâneas: regulação viária, equipamento de proteção acessível e revisão urgente da tabela de repasse do SUS para trauma de moto, que segue congelada em valores que não refletem a realidade dos hospitais que atendem esses pacientes todos os dias.
A conta está aberta. E por enquanto, quem está pagando é o hospital. E quem está morrendo é o motoboy.

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