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Move Brasil Entregadores e Motoapp: como funciona o financiamento de motos elétricas sem entrada lançado por Lula

O presidente Lula assinou, em 12 de junho, a Medida Provisória que cria o Move Brasil Entregadores e Motoapp, programa de financiamento que permite a entregadores ciclistas, motociclistas e mototaxistas cadastrados em aplicativos comprarem motos e bicicletas elétricas zero quilômetro produzidas no Brasil, com juros abaixo do mercado, carência de dois meses e sem necessidade de entrada.

Na sexta feira (12), durante cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o Move Brasil Entregadores e Motoapp, novo programa federal de financiamento voltado a quem vive da rua: entregadores de aplicativo, motociclistas, motofretistas e mototaxistas. A iniciativa, oficializada por meio de medida provisória, decreto e resolução publicados na mesma data, tem como objetivo facilitar a compra de motos, motonetas, ciclomotores e bicicletas elétricas fabricadas no Brasil, com condições de crédito mais acessíveis do que as praticadas atualmente pelo mercado.

O que é o Move Brasil Entregadores e Motoapp

O programa integra a Medida Provisória número 1.366, de 12 de junho de 2026, e tem como objetivo facilitar a aquisição de bicicletas elétricas, motonetas, ciclomotores, motos elétricas e motos flex, montados ou produzidos no Brasil. A linha faz parte do guarda chuva do Move Brasil, conjunto de programas de crédito operados pelo BNDES para renovação de frotas em diferentes setores da economia, que também inclui o Move Aplicativos, voltado a motoristas de carro, e o Move Máquinas Agrícolas.

Durante o evento, o presidente Lula afirmou estar tirando mais um pouco de gente da invisibilidade, comparando a medida ao reconhecimento dado recentemente às mulheres negras e afirmando esperar que, no futuro, nenhum trabalhador brasileiro se sinta invisível.

Quem pode participar

Os critérios de elegibilidade são específicos e merecem atenção de quem trabalha na ponta. Podem acessar o programa entregadores ciclistas e motociclistas cadastrados em plataformas de aplicativo há pelo menos seis meses, com no mínimo 100 corridas ou entregas realizadas. Também podem participar ciclistas, motofretistas e mototaxistas contratados pelo regime CLT, desde que tenham pelo menos seis meses de vínculo na mesma empresa. Para veículos que exigem habilitação, será necessária Carteira Nacional de Habilitação na categoria A.

Uma regra importante: o programa permite o financiamento de apenas um veículo por beneficiário.

O que pode ser financiado

Entre os itens financiáveis estão motocicletas, motonetas e ciclomotores flex de até 160 cilindradas produzidos no país; bicicletas e veículos autopropelidos elétricos de até 1.000 watts; e motos, motonetas e ciclomotores elétricos de até 7.500 watts, desde que produzidos no Brasil ou vinculados a projeto de investimento para produção nacional. Todos os veículos devem ser zero quilômetro.

O financiamento ainda pode incluir itens complementares: há previsão de cobertura para seguro prestamista, proteção que ajuda a quitar a dívida em caso de imprevistos, além de capacetes, baterias e pontos de carga elétrica.

Juros, prazos e carência: o que muda no bolso

Esse é o ponto que mais interessa quem está na rua. As condições preveem juros de 12,5% ao ano para homens e 11,5% ao ano para mulheres, com prazo máximo de 48 meses e carência de dois meses, carência que, na prática, pode chegar a três meses, já que quem comprar a moto em julho, por exemplo, só começa a pagar em outubro.

Para colocar em perspectiva o tamanho do desconto, o ministro Guilherme Boulos citou que a média de juros para compra de motos no mercado costuma girar em torno de 27% ao ano, contra os 12,5% oferecidos pelo programa.

Em termos práticos, uma simulação oficial mostra que um empréstimo de 21 mil reais resultaria em parcelas próximas de 552 reais. O financiamento pode chegar a até 100% do valor do bem, sem necessidade de entrada, e conta com garantia do Fundo Garantidor de Operações, que cobre 50% da carteira e até 100% da operação individual, mecanismo pensado para reduzir o risco para bancos e fintechs e, com isso, ampliar o acesso ao crédito.

Como funciona o cadastro

A adesão é feita pela plataforma oficial gov.br/movebrasil, com autorização do trabalhador para compartilhamento dos dados necessários à verificação dos requisitos. Após o cadastro, o profissional recebe a informação sobre se atende às condições de participação.

A partir daí, começa a segunda etapa: a partir de 13 de julho, quem receber a confirmação de elegibilidade pode procurar a Caixa, o Banco do Brasil ou outras instituições financeiras habilitadas para a análise de crédito e contratação do financiamento. É importante destacar que a aprovação no cadastro confirma apenas que o profissional atende aos requisitos de participação, não garante automaticamente o financiamento, que segue sujeito à análise de crédito de cada banco.

Para quem tem nome negativado, há uma porta de saída: trabalhadores com restrição de crédito poderão recorrer ao programa Desenrola para regularizar a situação antes de tentar o financiamento.

Lula também cobrou agilidade das instituições públicas: o presidente determinou que Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal tenham até 30 dias para preparar suas equipes e atender, de forma proativa e com menos burocracia, os interessados em financiamento.

A reação da categoria: o que diz o SindimotoSP

A medida foi recebida com cautela otimista por parte das entidades que representam motociclistas profissionais. O vice presidente do Sindicato dos Mensageiros Motociclistas, Ciclistas e Mototaxistas do Estado de São Paulo, SindimotoSP, Gerson Silva Cunha, lembrou que uma tentativa semelhante de programa já havia sido proposta no segundo mandato de Lula, mas nunca chegou a ser implementada, um histórico que, na avaliação da categoria, reforça a importância de acompanhar de perto a execução real do Move Motos a partir de julho.

Os números do primeiro dia

O volume de adesão surpreendeu mesmo no lançamento. Já no primeiro dia de operações, 3,2 bilhões de reais em crédito foram contratados pelo Move Brasil, dentro de um total de 21,2 bilhões de reais disponibilizados pelo BNDES. No recorte do Move Aplicativos, linha equivalente voltada a motoristas de carro, 740 mil profissionais já haviam atendido aos requisitos para acessar o financiamento em condições mais favoráveis.

A análise de crédito junto aos bancos para o Move Motos tem início em 19 de junho, data que marca o verdadeiro teste de fogo do programa: é quando a promessa de crédito mais barato passa a depender da agilidade, ou da burocracia, das instituições financeiras na ponta.

E quanto à economia? O impacto real das taxas

Do ponto de vista econômico, o desenho do programa busca equilibrar dois objetivos que normalmente entram em tensão: ampliar o acesso ao crédito para uma população historicamente vista como de alto risco, sem renda formal comprovada, sem histórico bancário robusto, e ao mesmo tempo não pressionar excessivamente as contas públicas.

A engenharia escolhida resolve isso transferindo o risco, não o eliminando: o Fundo Garantidor de Operações assume a maior parte do prejuízo em caso de inadimplência, o que na prática funciona como um subsídio público ao risco de crédito. Isso permite que bancos como Caixa e Banco do Brasil ofereçam taxas abaixo de mercado sem precisar, eles próprios, absorver o custo total de um possível aumento de inadimplência nessa carteira.

O ponto de atenção fica para os próximos meses: o sucesso do programa depende menos do anúncio e mais da execução, da velocidade com que os bancos vão de fato aprovar os financiamentos a partir de 19 de junho, e de como o mercado de motos vai reagir à demanda represada de centenas de milhares de trabalhadores tentando trocar de veículo ao mesmo tempo.

SM